Hip Hop, Sexismo e Feminismo

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O hip hop surgiu no Bronx nos finais dos anos 60. É uma forma de expressão cultural que engloba várias manifestaões artísticas: rap, breakdance, graffiti (1). É, de certa forma, mais um herdeiro de uma tradição artística afro-america cujas raízes residem nos blues. Tal como os blues, também são um mecanismo de consciencialização e vocalização das preocupações da comunidade afro-americana. Na sua origem, o rap é uma forma de resistência e luta política.

Porém, se surge como manifestação das preocupações da comunidade afro-americana, o hip hop tem também influenciado estereótipos raciais que perpetuam uma forma de neo-esclavagismo, ao cristalizar uma noção de guetto blackness, um modelo de autenticidade e hipness que limita a dita blackness a uma ligação primária com sexo e violência que é depois explorada pela indústria musical numa relação neo-colonialista.(2)

Neste sentido, há aspectos do hip hop que surgem como continuação da exploração colonialista a que o corpo da mulher africana foi sujeito, fenómeno do qual o caso mais famoso terá sido o de Saartjie Baartman, a vernus hotenote, exibida como atracção de circo na Europa no início do séc. XIX e cujos genitais, preservados em formol, estiveram em exposição no Museu do Homem em Paris até 1974. O hip hop tem sido diversas vezes acusado de misógino, não só pelos termos derrogatórios com que as mulheres são frequentemente designadas (hoes, bitches) mas também pelas representações da mulher em que as letras muitas vezes recaiem: a loca hipersexual , a baby momma , a guetto bitch.

Estas representações estão presentes desde o início da história do hip hop /rap. Sob a capa de uma comunidade unida na mesma luta contra a opressão colonialista, o hip hop tem desde o seu início reflectido uma cultura na qual a mulher é olhada com desconfiança, como fonte de problemas para o homem, sua perdição, e deve por isso ser tratada apenas como objecto sexual. A lição será, não tanto a de aprender a odiar as mulheres, mas antes a de não as amar. Podemos encontrar exemplos desta postura em diversas músicas:

Ice Cube was a pimp, so he said. Snoop Dogg said, “we don’t love them hoes,” on “Gin and Juice.” E-40 cautioned against coming to the aid of women in “Captain Save-A-Hoe.” Too $hort made me feel like the only life to live was that of a man with not one woman but many in “I’m a Player.”
J Cummings in Hip-Hop and Valentine’s Day: Why Rap Makes it Hard to Fall in Love

Porém, se por um lado é verdade que o hip hop tem sido um veículo para o perpetuar de estruturas patriarcais, também é verdade que a atitude crítica e a criação de espaços de resistência é inerente ao espírito desta cultura, pelo que não tardaram a surgir dentro do movimento vozes discordantes, pondo em causa a misoginia veiculada pelo conteúdo das músicas.

O primeiro passo para a consolidação desta linha feminista foi o aparecimento das primeiras mulheres na música. A estutura das answer/diss songs, nas quais x rapper ataca e critica outrx rapper como resposta uma música q estx tenha escrito, criou o espaço ideal para que as primeiras mulheres rappers pudessem ripostar. O primeiro exemplo foi, em 1984, a música Roxanne’s Revenge de Roxanne Shanté, uma resposta à música do colectivo UTFO Roxanne Roxanne, na qual criticam uma mulher, Roxanne, que rejeita os avanços dos membros do grupo .

Seguiu-se em 1985 The Show Stoppa (Is Stupid Fresh), das Salt-N-Peppa (na altura ainda sob o nome Super Natural), dirigida a E. Doug Fresh que na canção The Show fazia pouco de uma fã. Na sua diss song, as rappers pintam E. Doug Fresh como pouco talentoso e patético nas tentaticas de engate.

Com a entrada em cena das Salt-N-Peppa inicia-se um capítulo verdadeiramente feminista na história do rap, ao abrirem caminho para artistas assumidamente feministas, como Queen Latifah, Yo-Yo e MC Lyte. Este período viu surgir alguns grandes temas feministas, que conseguiram conquistar um público bastante vasto: U.N.I.T.Y (1994) de Queen Latifah, criticando o tratamento reservado às mulheres pela sociedade, abordando temas como o assédio sexual, a violência doméstica e a utilização dos termos hoe e bitch no hip hop; Sisterland (1991), de Yo-Yo, apelando ao respeito pelas mulheres e à solidareidade entre mulheres; None of Your Business (1994) de Salt-N-Peppa, na qual reclamam o seu direito a divertirem-se sem serem julgadas.

A importância desta primeira vaga de mulheres rappers não pode ser sobrestimada. Ao abordarem temas que diziam respeito ao quotidiano das mulheres em geral, e das mulheres afro-americanas em particular, estas rappers trouxeram para o espaço público problemas como o assédio sexual, ao mesmo tempo que constituiam um novo modelo para jovens mulheres lidarem com relacionamentos e assédio de uma forma auto-confiante. Como diz Gwendolyn D Plow em “Love Feminism, But Where’s My Hip Hop?”:

As a Black woman coming of age during the hip-hop era, I saw the answers that Santé and Salt-N-Peppa put to wax as more than just temporary jams to get the body moving. They let me know I could have a voice as well. They offered the strong public presence of black womanhood that I had seen in my mother and her friends but had not witnessed in my generation in such public form. (…) Their talking back and speaking out against unwanted advances that could easily be read as sexual harassment gave me a model for dealing with similar issues as I braved inner-city streets.

Este novo espaço e nova attitude aqui inaugurados, tiveram impacto também na música criada por rappers do sexo masculino. 2pac, na altura o mais respeitado rapper (com uma aura que se mantém até aos dias de hoje), lançou em 1993 Keep Ya Head Up, na qual encoraja as mulheres a lutarem para conquistar o respeito da sociedade e critica a misoginia que testemunhou nos guettos. Surgiram também outros modelos para a masculinidade. Se é verdade que a tónica ainda se mantém na violência, droga e sexo, ao longo dos anos 90 foram surgindo outras formas de expressar emoções que não apenas através da agressividade, e isso reflecte-se no conteúdo das músicas, onde as mulheres começam a ser representadas também como companheiras (pondo de certo modo fim à rejeição do amor) e, sobretudo, através do reconhecimento da figura materna.

A partir deste ponto, a presença de mulheres no rap tornou-se um pouco mais habitual, e várias outras rappers surgiram ao longo dos anos 90. Isto não significa, contudo, que estas novas rappers tenham dado continuidade à postura assumidamente feminista da primeira geração. O seu trabalho assume variadas expressões e variadas posturas. Porém, é interessante notar que a maioria destas rappers tende a recorrer a alguma forma de uma reprodução dos papéis de género associados ao masculino. Algumas rappers, das quais Boss é o exemplo mais célebre, abraçam integralmente esta performance de género masculino, copiando os gestos, a atitude, a forma de vestir e reproduzindo nas letras os temas associados ao ideal de masculinidade. A segunda metade dos anos 90 viu surgir, primeiro com Lil Kim e Foxy Brown, e na entrada do novo milénio com Trina, um novo tipo de rapper de identidade andrógina, “retoricamente masculina, visualmente feminina” (3), ou seja, que procura realçar a sua feminilidade através do visual, mas que opta por um discurso que replica e dialoga com o padrão de sexualidade masculina e se reapropria da linguagem sexista e misógiona de muitos rappers (ex: “I be the richest, shitting on these bitches” em I Know What Girls Like, de Lil’ Kim). Curiosamente Lil Kim auto-denomina-se feminista, o que gera alguma controvérisa no seio do movimento (4), e particularmente entre as rappers feministas. Esta linha de rappers femininas tem hoje em dia a sua mais proeminente continuadora em Niki Minaj.

Apesar dos progressos registados, continua a ser difícil para uma mulher conseguir reconhecimento enquanto rapper (algo que, aliás, longe de ser exclusivo do hip hop , é transversal a todos os géneros musicais). Numa tentativa de dar maior visibilidade ao rap feminino, começou recentemente a ser empregue a expressão femcee para designar mulheres que fazem rap. Femcee é uma alteração de emcee, ou MC, Master of Cerimonies, nome que designa os rappers que escrevem as suas próprias letras.

Dada a sua vocação reivindicativa, o hip hop pode ser entendido também como uma forma de dar voz às lutas contra a opressão, entre as quais se conta o feminismo. Ao longo da última década têm-se multipicado as ofertas em hip hop studies com uma perspectiva feminista e em 2005 organizou-se a Conferência sobre Feminismo e Hip Hop no Center for Race, Politics and Culture da Universidade de Chicago.

Fora do ambiente académico, o hip hop tem servido de pretexto para reunir feministas que partilham um interesse por este tipo de música e que através dele levam acabo iniciativas, quer no seio da sua comunidade, quer dirigidas a um público mais amplo. O hip hop tem-se, pois, provado um mecanismo eficaz no fortalecimento de laços de solidariedade feminina. Um projecto interessante é a Hip Hop Sisters Network, criada pela rapper Mc Lyte.

A internet tem permitido novas formas de organização e empoderamento das mulheres, seja como forma de dar visibilidade às artistas que trabalham no meio, seja como ulitilização do hip hop como meio de consciencialização d@s ouvintes, e sobretudo d@s jovens, para as questões de género. As iniciativas multiplicam-se, com criação de colectivos, blogs ou grupos, como por exemplo Crunk Feminist Collective, um colectivo informal de feministas afro-american@s. A um nível de acção mais individual, jovens mulheres têm aproveitado ao oportunidade que a internet, particularmente o Youtube, lhes oferece de se fazerem ouvir, para desconstruirem as mensagens veiculadas em várias músicas de hip hop. Um bom exemplo disto é o trabalho que Issa Rae tem desenvolvido com as suas Issa Rae Productions , produzindo um conjunto de séries e vlogs nos quais desconstrói as marcas de racismo e sexismo presentes na representação que os media fazem da mulher afro-americana. Um outro caso notável foi o de um duo de jovens rappers de 10 anos, as Watoto From The Nile, que escreveram uma canção dirigida ao rapper Lil’ Wayne, chamando-lhe a atenção para o conteúdo sexista e excessivamente violento das suas letras.

Conforme se pode constatar neste percurso que estabelecemos, o hip-hop, como qualquer produto oriundo de uma sociedade patriarcal, reproduz as estruturas opressoras desta sociedade. Porém, dado o carácter crítico e reivindicativo do rap, este tipo de música tem em si o potencial de ser uma ferramenta de resistência, como provam os espaços que se foram criando para uma mensagem e uma acção feminista.

Referências
(1) http://hiphophistory.indiegroup.com/
(2) http://www.nativeshout.com/?portfolio=hoopty-hoop-hip-hop-feminism-the-manifesto
(3) http://www.racialicious.com/2010/04/08/quoted-menda-francois-on-nicki-minaj-and-feminist-contradictions-in-hardcore-female-rap/
(4) http://katborgerding.wordpress.com/2011/06/12/lil%E2%80%99-kim-hip-hop-feminist/

(Originalmente publicado em Dos Fragmentos a 05-05-2013)