Pierre Étaix

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Terminou ontem mais uma edição da Festa do Cinema Francês, com 20 antestreias e duas retrospectivas em arranque (prolongar-se-ão até ?? de Novembro).

Finda a festa é tempo de fazer um balanço. Mas porque passar em revista 10 dias de filmes de uma assentada corre o risco de se tornar uma tarefa maçuda (para quem lê como para quem escreve) divida-se então em três partes este registo do que de melhor e pior se pode ver (ou que eu pude ver).

Concentremo-nos pois, para esta primeira parte, no primeiro fim-de-semana, que marcou o início do ciclo dedicado à obra integral de Pierre Étaix. Foi há mais de 20 anos que Étaix realizou o seu último filme, mas não porque lhe tenha perdido o gosto: J’Écris dans l’Espace (1989) terá sido fonte de controvérsia (por motivos não claramente explicados) e a partir daí o realizador, vencedor de um Óscar (por Heureux Anniversaire, 1962) não conseguiu mais encontrar um produtor para os seus filmes. No início dos anos 90, começa um imbróglio jurídico que duraria anos e que impediria quem quer que fosse de ver os filmes, o que explica a razão pela qual um dos grandes nomes da comédia francesa se tornou um desconhecido entre as gerações mais jovens. Decididos a tirar Étaix do esquecimento em que caíra, a Fundação Technicolor,  a Fundação Groupama Gan e a produtora Studio 37 procederam à restauração de cópias dos seus filmes, e agora Étaix encontra-se numa digressão mundial que o trouxe à Festa do Cinema Francês.

Nas duas primeiras sessões da sua retrospectiva, pudemos ver En Pleine Forme (1965), Le Soupirant (1963) – na 6ª feira – Heureux Anniversaire (1962) e Le Grand Amour (1969). En Pleine Forme e Heureux Anniversaire são curtas metragens. A conclusão a que se chega é que é neste campo que Étaix consegue levar mais longe a crítica social. No primeiro, Étaix foge da cidade para ir acampar e vai parar a um estranho parque de campismo. No segundo, perde-se no transito caótico de Paris.Em ambos se critica uma burguesia superficial e uma sociedade presa a um quotidiano absurdo. Isto, claro, no meio de mitos gags de humor físico, como convém a um herdeiro de Chaplin e Keaton.

Nas longas, Étaix debruça-se sobretudo sobre o amor, e muita da comicidade resulta das suas frustrações amorosas. Isto é visível sobretudo em Le Soupirant, em que Étaix, após anos dedicados à astronomia, decide, após conselho dos pais, arranjar uma mulher. Segue-se então um longo percurso de aprendizagem, no qual se cruza com a rapariga errada e se apaixona, com a mesma devoção com se entregara à astronomia, por uma estrela de music-hall. Em Le Grand Amour, Pierre é assaltado por dúvidas durante o seu casamento. Espera-lhe uma boa mulher, uma boa casa, um bom emprego na fábrica do sogro… Uma nova secretária na fábrica vem abalar este mundo. Étaix faz, com estes dois filmes, uma crítica mordaz à França burguesa dos anos 60.

A redescoberta desta cineasta multifacetado continua na cinemateca até ao dia 29 de Outubro, na cinemateca. Para quem não teve oportunidade de ver durante a festa, aconselha-se vivamente!

(Originalmente publicado no blog do Cinema ParaIST a 17-10-2010)

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