doclisboa 2011

Crazy Horse 7©AntoinePoupel

Vem aí mais uma edição do DocLisboa! Nesta 9ª edição foram tomadas novas orientações, dado o actual momento de crise: procurou-se diminuir o número de filmes e concentrar o número de salas. Estas medidas não parecem ter, contudo, impedido que se programasse um festival rico em conteúdo, como poderemos confirmar de 20 a 30 de Outubro na Culturgest, na Cinemateca Cinema Londres, Teatro do Bairro, Cinema City Campo Pequeno e no Cinema S. Jorge. Será apresentado um total de 172 filmes, cuja duração varia entre 6h e um minuto e meio, com 33 países representados (incluindo Portugal). Deste total, haverá 17 primeiras-obras (das quais 4 portuguesas), 7 estreias internacionais (ou seja, filmes que ainda só foram exibidos no seu país de origem) e 5 estreias mundiais. Em relação às secções, deixará de haver um panorama nacional e foi reduzido o número de categorias de competição. Mantêm-se contudo as secçõesRiscos (para o documentarismo mais experimental), Heartbeat (onde o tema é a música), as competições nacional e internacional (de médias/longas e de curtas), e retrospectivas, nomeadamente da obra de Harun Farocki, Jean Rouch e ainda um conjunto de filmes sobre os movimentos de libertação em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau (1961-74), tudo isto complementado por sessões especiais. Neste ano houve um trabalho particularmente apurado de programação, para que fossem possíveis vários percursos e descobertas.

Nota: segue-se uma apresentação mais exaustiva do festival (chamemos-lhe um “Guia do Essencial”). Embora aconselhemos a leitura integral (não custa assim tanto, vá), para que se compreenda melhor as relações entre as várias secções e se perceba quais os filmes imperdíveis e porquê, facilitámos a tarefa aos mais preguiçosos, que se podem limitar a ler a informação a negrito e títulos dos filmes a itálico/verde – mas devem voltar ao artigo quando se aproximar a data do festival, para uma selecção mais informada!


Secções

Trazer Harun Farocki ao Doc foi um sonho de longa data de Augusto Seabra (director do festival até ao ano passado e actual Programador Associado), que este ano foi finalmente possível concretizar. Já tinha havido uma retrospectiva deste importante realizador e artista visual no já extinto “VídeoLisboa”. Serão exibidos 14 filmes, sendo esta retrospectiva complementada por uma exposição no Palácio das Galveias com três duplas projecções. Para além de estar presente para falar sobre os seus filmes durante algumas das exibições, Farocki dará ainda uma masterclass na manhã do dia 25, no Grande Auditório da Culturgest.

Também homenageada este ano será a obra de Jean Rouch, que na segunda metade do séc. XX teve impacto sobre todos os aspectos do cinema. Resultado de uma parceria com a cinemateca (pela segunda vez na história do festival, tendo a primeira vez sido o ano passado a propósito das obras de Joris Ivens e Marcel Ophüls), esta retrospectiva passará 58 filmes de entre a extensíssima obra do cineasta (é difícil atribuir um número exacto de filmes, mas rondarão a centena), aos quais se acrescem 4 filmes sobre a vida e trabalho de Rouch. A programação parte de um projecto de Philippe Constantini, que foi colaborador de Rouch e elaborou um conjunto de reflecções sobre a sua obra (incluídas nos tais 4 filmes “extra”). O ciclo prolongar-se-á pelo mês de Novembro, sendo então repetidos todos os filmes exibidos durante o festival, e será editado um catálogo, disponível no início do ciclo.

Numa retrospectiva de tema mais alargado, temos um conjunto de filmes sobre os movimentos de libertação, feitos na época, e que relatam o que se passava então em Angola e Moçambique. Trata-se de uma mostra pensada na altura mas nunca feita (e que entretanto já vários outros festivais internacionais demonstraram interesse em repetir). Ligada a esta mostra vai haver uma sessão especial, intitulada “Artista e Historiador”, que propõe analisar o olhar da juventude sobre imagens e tempos em que não eram nascidos.

A secção Riscos, criada em 2007, pretende ser um espaço mais radical, vocacionado para a divulgação de novas formas de olhar e fazer documentarismo. Este ano vai ter uma estrutura ligeiramente diferente, concentrada sobretudo na exibição de curtas-metragens, como a tal curta de um minuto e meio, “Nuit Blanche”. É também nesta secção que surge o filme de 6h, “Karamay” uma obra chinesa sobre a ditadura do silêncio, que será apresentada dia 23 (sábado) a partir das 11h e com uma hora de intervalo a meio.

A secção musical, Heartbeat, procurou este ano ter uma programação mais diversificada, cobrindo vários géneros musicais.

  • Clássica: os filmes “Brava, Victoria!” sobre a soprano espanhola Victoria de los Angeles e “Michel Corboz, le combat entre le vrai et le beau”, sobre o actual director do coro Gulbenkian;
  • Jazz: “Michel Petricciani” pianista que apesar de ter nascido com osteogénese imperfeita se tornou numa lenda do jazz;
  • Hip Hop: “Hip Hop, le monde est à vous” que dá uma visão global do Hip Hop, do Bronx ao Senegal, passando por Paris e Berlim;
  • Punk: “End of the century: the story of the Ramones”, sobre os Ramones;
  • Rock: “George Harrison: Living in the material world”, o aguradando filme de Scorsese sobre George Harrison, o já falecido guitarrista dos Beatles, será transmitido em duas partes (dias 22 e 23) numa rara oportunidade de vê-lo em grande tela, já que será lançado directamente para DVD; “Mounterey Pop”, sobre o festival do mesmo nome, equiparável a Woodstock, de Allen Pennbaker, membro da nova escola de documentarismo americano e que realizou também “Don’t Look Back”, documentário sobre Bob Dylan exibido em 2009 no Doc .

Destaques

Este ano, como em anos anteriores, os filmes exibidos nas competições e retrospectivas serão complementados com sessões especiais, das quais destacamos algumas. As sessões de abertura e encerramento estarão a cargo de Frederik Wiseman e Ross McElwee, respectivamente, ambos realizadores que já tiveram retrospectivas no DocLisboa e que aqui se apresentam com os filmes “Crazy Horse”, sobre o cabaré do mesmo nome, e “Photographic Memory”, sobre a conflituosa relação do realizador com o seu filho. Destas sessões especiais destacamos ainda o filme-surpresa, que vai passar no último dia, juntamente com os filmes premiados e que não pode ser divulgado antes dado que o assunto do filme tem um embargo judicial. Intrigante, no mínimo…

De entre os restantes filmes exibidos, gostaríamos ainda de chamar a atenção para uns quantos:

  • No ano da chamada “Primavera Árabe”, o Doc não quis passar ao lado das lutas, tendo seleccionado um conjunto de filmes sobre o tema, tais como “Plus Jamais Peur”, sobre a revolução tunisina, “Tarhir – Liberation Square” sobre os dias vividos na praça egípcia, “This is not a film”, filme iraniano sobre Jafar Panahi, sentenciado a prisão domiciliaria por criticar o regime (e que teve der ser transportado a Cannes dentro de um bolo, tal o secretismo a que estava obrigado), e “Fragments d’une Revolution”, filme anónimo sobre as eleições presidenciais no Irão em Junho de 2009;
  • Duas primeiras-obras, que os programadores do festival consideram as maiores descobertas deste ano: a cineasta brasileira Alessandra Bergamaschi, que apresenta o seu “Aterro do Flamengo”, e a austríaca Ivette Löcker, que apresenta “Nachschichten”, sobre o lado desconhecido da noite de Berlim;
  • Dentro das estreias mundiais, serão apresentados no dia 26, em conjunto, um filme de Agnés Varda, primeiro de cinco episódios de uma série sobre os seus passeios intitulada “Agnès de ci de là Varda”, no qual ela passa por Portugal e conversa com Manoel de Oliveira, e “Sodankylä Forever”, um filme de Peter von Bagh reunindo depoimentos de vários realizadores, recolhidos no Midnight Sun Film Festival, o festival de cinema que criou juntamente com Aki Kaurismäki, e no qual fala, entre outros, com Agnés Varda, Manoel de Oliveira, Jean Rouch e Jafar Panahi. Também em estreia mundial será apresentado um filme de James J Schneider, produzido pelas cinematecas francesa e bretã, sobre Jean Epstein, “Jean Epstein, young oceans of cinema”, com o testemunho de Jean Rouch em como os filmes e livros de Epstein foram fulcrais para a sua obra.

Actividades Paralelas

Além da divulgação, o DocLisboa pretende também ter um papel pedagógico, pelo que, como tem vindo a acontecer em anos anteriores, a programação das exibições é acompanhada de um programa de actividades pedagógicas. Este ano poderemos contar com um workshop de realização com Sérgio Treffaut, onde em cada sessão será analisado o processo de criação de um filme, um debate sobre produção, intitulado “Do Sonho à Realização”, a já referida masterclass de Harun Farocki, e sessões da CPLP no Cinema Londres. Na Culturgest, o Fórum debates marcao ponto de encontro entre os realizadores e público, todos os dias, após as projecções no grande auditório. Para os mais novos haverá ainda a secção Docs 4 Kids.

Estão ainda programadas festas para os dias 22 (George Harrison é o tema), 25 (Ramones dão o mote) e 28 (subordinada tema dos Movimentos de Libertação).

Com um programa recheado e preços acessíveis (3,5€ um bilhete normal, 3€ para portadores de cartão de estudante), o DocLisboa é paragem obrigatória na última semana e meia deste mês. O CinemaParaIST vai estar a seguir o festival, publicando críticas dos filmes exibidos (e possivelmente também entrevistas). Em breve publicaremos informações sobre passatempos, por isso estejam atentos!

Para mais informações, consultem o site do festival: http://www.doclisboa.org/2011/

(Originalmente publicado no blog de Cinema ParaIST a 10-03-2011)

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