Der Letzte Mann (1924)

der letzte mann

Último dos Homens, no original Der Letzte Mann é um filme mudo de 1924 realizado pelo alemão Friedrich Wilhelm Murnau, conhecido sobretudo pelo seu Nosferatu de 1922 mas autor de outras obras maiores como sejam Herr Tartüff (1925), Faust (1926), Sunrise (1927) e Tabu (1931).

Apesar de não ser atualmente o seu filme mais famoso, Der Letzte Mann foi um sucesso entre o público e a crítica e projectou internacionalmente o realizador, que veio a terminar a carreira em Hollywood, sendo hoje em dia considerado por alguns críticos a sua obra seminal.

O filme acompanha alguns dias na vida de um porteiro cujo nome nunca chegamos a conhecer e que exerce as suas funções no Hotel Atlantic. O homem, já de certa idade e de porte orgulhoso e imponente, tira grande prazer da sua função. Cumprimenta alegremente os clientes do hotel, acompanha as senhoras ao táxi, sempre com um grande sorriso e nunca descurando a aparência, já que transporta no bolso um espelho e regularmente ajeita o cabelo e as suiças fartas. Tem particular orgulho na sua vistosa farda, da qual retira um forte sentido de dignidade e que inspira admiração na sua comunidade, um pobre bairro operário.

A idade começa, porém, a pesar no porteiro, e após transportar uma mala pesada vê-se obrigado a sentar-se e a beber um copo de água, ocorrência que não passa despercebida ao gerente do hotel, que se apressa a tomar nota do sucedido. No dia seguinte, ao chegar ao Hotel, o porteiro encontra a sua posição ocupada por um outro homem, mais novo e ainda mais imponente. Já no escritório do gerente, este informa-o friamente de que, dada a sua idade avançada, deixará de cumprir funções como porteiro e deverá substituir o mais velho empregado do hotel, que se acaba de reformar, no cuidado dos lavabos. Perante o olhar indiferente do gerente, é despido da farda à força e conduzido para os lavabos através de uma escada que poderia bem ser a entrada para o submundo de Hades…

A partir daqui o filme ganha um tom predominantemente subjectivo, fazendo uso de uma gama de recursos técnicos para nos transportar para uma realidade distorcida, o mundo do ponto de vista do protagonista, e nos revelar a sua humilhação e o seu processo de perda de identidade.

Incapaz de se separar da farda, o porteiro rouba-a durante a noite, mas o seu esquema vem a ser descoberto e o pobre homem é ridicularizado e marginalizado pela sua comunidade. Humilhado e abatido, vem à noite enterrar-se nos lavabos onde durante o dia trabalha, para se retirar do mundo e esperar a morte.

Contrastando com o caráter literário e a temática ocultista dos anteriores filmes de Murnau, Der Letzte Mann tem uma história muito simples. No fim de contas, tudo se resume ao facto de o porteiro ver a sua farda trocada por outra. Não há qualquer menção a uma diminuição de salário (aliás, a questão económica nunca é colocada), ele não é despedido, e a justificação da idade é até plausível (quando, no escritório do gerente, o porteiro tenta provar que ainda está apto para continuar a exercer as mesmas funções, tenta levantar uma mala mas as forças não lhe chegam e a mala cai por terra, espalhando o seu conteúdo pelo chão). A narrativa centra-se essencialmente na construção do mundo interior de uma personagem cuja identidade e dignidade dependem do olhar dos outros.

Para nos contar esta história plena de subjetividade, o realizador reuniu elementos de dois géneros cinematográficos alemães: o intimista Kammerspiel e o dramático expressionismo. Esta combinação era algo que, aliás, já vinha a desenvolver ao longo da sua obra até então. Murnau estudara teatro com Max Reinhardt, criador do Kammerspiel. Por outro lado, Carl Mayer, autor do argumento, e Karl Freund, director de fotografia, eram dois dos maiores nomes do cinema expressionista.

A influência do Kammerspiel manifesta-se sobretudo na importância que a dimensão psicológica das personagens assume no argumento e no trabalho dos atores, particularmente de Emil Jannings, que interpreta o porteiro. A câmara segue-o em quase todos os planos, cortando para nos mostrar o que a personagem vê ou imagina. É concedida grande importância a cada pequeno gesto e expressão, como é evidenciado pelo constante recurso a grandes planos e planos de pormenor. Num toque mais expressionista, Murnau trabalha as potencialidades dramáticas da iluminação e da caraterização para acentuar as expressões de Jannings e evidenciar a metamorfose que a personagem sofre ao longo do filme.

Outra caraterística que o filme vai buscar ao Kammerspiel e que contrasta com o cinema expressionista é a ausência de intertítulos (com apenas uma excepção de que falarei mais à frente). Murnau e Freund procuraram com este filme explorar as capacidades do cinema enquanto linguagem universal. Para isso levaram a cabo um virtuoso trabalho de câmaras e de décors, que tornam a linguagem visual de cinema tão eloquente que a narrativa se torna fácil de seguir e não se sente necessidade de intertítulos.

Der Letzte Mann foi o primeiro filme que Murnau fez para os estúdios UFA, na altura os maiores estúdios na Alemanha, e que lhe concederam um orçamento de um milhão de marcos para desenvolver o projecto. Sendo um valor relativamente modesto, foi suficiente para que pudesse criar um elaborado décor simulando um ambiente urbano buliçoso e completamente desligado da natureza. O estilo oscila entre um realismo austero e cru, com perspetivas cuidadosamente calculadas, e o estilo dramático e exagerado de formas distorcidas que caracterizava o cinema expressionista, a que o filme recorre nas sequências de sonho ou para expressar a culpa e ansiedade do protagonista

Foi também possível criar complexas estruturas que suportassem as câmaras e lhes permitissem total liberdade de movimento, numa técnica que veio a ser conhecida como entfelsste Kamera. A câmara move-se sem esforço, seguindo pessoas, descendo elevadores, voando pelo ar soprada por uma trompa, como se dançasse ao sabor das ondas sonoras. Este elaborado trabalho é um dos pontos mais valorizados do filme e valeu a Karl Freund a entrada no mundo de Hollywood. Planos como o que inicia o filme, revelando-nos o Hall do hotel, e o que inicia o epílogo, em que a câmara percorre toda a sala de jantar até nos revelar o porteiro por detrás de um grande bolo, vieram a servir de inspiração da diversos realizadores em Hollywood, dos quais o mais notável exemplo será a aclamada cena inicial de Touch of Evil (Orson Welles), em que a câmara sobrevoa um quarteirão até encontrar o protagonista.

O filme deveria terminar com a derradeira descida do protagonista aos lavabos, onde adormece, mas neste momento o único intertítulo do filme informa-nos de que “o autor teve piedade do seu herói” e, se no mundo real pouco lhe restaria senão “esperar pela morte”, o filme permite-lhe um destino diferente (e assumidamente improvável). Este Happy End, que muitos crêem ter sido uma imposição dos estúdios, tem um tom sarcástico e vários críticos lêem nele uma crítica quer ao cinema americano, quer a uma sociedade materialista e de aparências. Subitamente milionário, o porteiro é agora cliente do mesmo hotel onde foi despido da sua dignidade. A condição para ser aceite neste meio selecto? Só uma: ter dinheiro.

Der Letzte Mann é um filme que se presta a várias interpretações. Onde uns vêm uma reflexão sobre a passagem do tempo, outros vêm o retrato de uma sociedade superficial e outros ainda uma crítica a um sistema capitalista opressor e desumano. Para lá das várias leituras políticas que possamos fazer – e lanço o repto a quem ler estas linhas de ver o filme e desenvolver a sua própria interpretação – no fim de contas estamos perante um belíssimo objecto cinematográfico que conquistou o seu lugar na história do cinema.

(originalmente publicado n’A Comuna a 15-03-2013)

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