Crítica a Anna Karenina

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Sinopse: Na Rússia do séc. XIX, Anna Karenina, uma aristocrata, inicia, após vários anos de um casamento pacífico mas pouco emocionante com Alexei Karenin, um affair com o Conde Vronski, para escândalo da aristocracia russa, que a vota ao ostracismo.
Acompanhamos também o percurso de Konstatin Levin, um latifundiário aristocrata e amigo de infância do irmão de Anna, Stiva.

Crítica:
Anna Karenina é o novo filme de Joe Wright, realizador inglês que iniciou a sua carreira com Orgulho e Preconceito (2005) e Expiação (2007). Após ter enveredado por terrenos diferentes com The Soloist (2009) e Hannah (2011), Wright regressou ao seu registo original e reuniu muita da equipa com que já trabalhara (Keira Knightley como protagonista, Sarah Greenwood encarregue do design de produção, Jaqueline Durrand no guarda roupa e Dario Marianelli na banda sonora, assim como Seamus McGavey, que já fora director de fotografia em Expiação) para encenar a mais recente adaptação do clássico de literatura de Tolstói. Tratando-se de uma obra já várias vezes adaptada ao grande ecrã, compreende-se que Wright tenha procurado fazer algo de diferente. O que nos propõe é uma versão muito estilizada do romance, convocando elementos cénicos das artes de palco num resultado que se assemelha visualmente a um ballet/ópera/musical filmado.

A premissa-base desta adaptação é a ideia de que “a vida é um teatro”: a maioria das cenas foram filmadas num teatro russo de 1870. Constrói-se assim uma metáfora para o quotidiano da aristocracia russa do séc. XIX através deste espaço, palco de um jogo de aparências e de julgamento moral e onde a élite se junta para ver e ser vista, para comentar e censurar. Ocupa-se não só o palco mas todo o edifício, e assim plateia, bastidores, camarotes e palco vão-se transformando continuamente em rua, salão de baile, gare de comboios, paddock de corridas de cavalos, ring de patinagem… Mas se esta fluidez permite cenas fascinantes – como quando, numa das primeiras cenas do filme, uma personagem atravessa, num só plano-sequência, três ambientes diferentes, enquanto o cenário se vai transformando e vai desfilando perante os nossos olhos – a verdade é que o ritmo se torna desgastante, pedindo do espectador uma atenção permanente para saber onde está e o que está a acontecer. Esta opção a nível de décor, por criar espaços sempre muito abertos e dinâmicos, acaba também por ser um obstáculo em cenas mais reflexivas e íntimas que requereriam uma maior interioridade. De facto, esta é uma crítica que se pode aplicar a quase todos os aspectos do filme: o inegável mas excessivo virtuosismo técnico tem um efeito anestésico, e impede o filme de envolver emocionalmente o espectador.

Em Anna Karenina, Joe Wright explora mais uma vez o seu gosto pela mise en scéne minuciosamente coreografada. O filme vai beber à linguagem da ópera e do musical, sobretudo nas cenas colectivas, em que os figurantes funcionam como um verdadeiro corpo de baile, valsando por entre os cenários que se transformam, e parando, quais estátuas, nos momentos de maior intensidade dramática, para focar a atenção nas personagens principais. Mas todo o aparato visual resulta excessivo e abafa o decorrer da narrativa. Fica-se com a sensação de que a coreografia espartilha o trabalho dos actores, os limita, ainda que Keira Knightley se supere na sua interpretação de Anna Karenina. Jude Law e Domhnall Gleeson são também convincentes enquanto Alexei Karenin e Konstatin Levin, respectivamente, mas Aaron Taylor-Johnson não consegue emprestar a Vrosnki o carisma que a personagem pedia.

A mesma lógica de fluidez e transformação pode ser encontrada na banda sonora de Dario Marianelli, da qual se pode dizer o que já foi dito sobre a mise en scène: interessante ao princípio, torna-se mais um elemento que distrai da narrativa e a sua presença acaba por se tornar pesada e ensurdecedora.

É questionável se esta abordagem terá sido a mais adequada para transpor para a grande tela a obra de Tolstói. Anna Karenina é um romance que se insere dentro da corrente realista, pelo que esta adaptação lhe confere um lirismo que não se coaduna muito com o espírito da obra. No fundo, este filme peca pela fraca relação com a obra literária na qual se inspira, que acaba por constituir pouco mais que um pretexto para a pirotecnia cénica. A mais clara prova disso é a secundarização a que a narrativa de Levin é votada, quando no livro ela se faz em contraponto com a da personagem de Anna Karenina (são estas as duas personagens principais). Se o filme tivesse retido da obra original a justaposição entre os percursos de Levin e Karenina, teria resultado mais evidente o tema da obra. Teria também sido mais eficaz a metáfora do teatro, já que Levin – que renuncia à vida de socialite moscovita e parte para uma existência livre de falsidade no campo – protagoniza as únicas cenas do filme filmadas no exterior, uma forma de indicar que é o único a fugir ao teatro da vida. Assim, a história de Levin acaba por parecer supérflua, a sua pertinência não é clara e não é suficiente para levar o espectador a estabelecer um paralelismo com a história de Anna. É uma pena este subaproveitamento, porque as cenas de Levin, com o seu cenário no local e mise en scéne despojada e austera, são um balão de oxigénio que permite ao filme (e ao espectador) respirar.

Em conclusão, Anna Karenina é sobretudo aparato visual muito virtuoso, que por isso mesmo se torna pesado, distraindo o espectador da narrativa e criando um distanciamento emocional. Quando a matéria prima é uma obra literária, acaba por ser um desperdício apostar quase exclusivamente no aspecto estético e não aproveitar a força da palavra.

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