Filme Fracasso

Film Socialisme

Março será o mês de Godard. A propósito da estreia em Portugal do seu último filme, “Filme Socialismo”, cujo visionamento teve lugar no passado fim-de-semana (Sábado, dia 5, na Culturgest e no Porto a 6 e 7, na Fundação Serralves), a cinemateca passará em revista a obra do realizador, exibindo alguns de entre os vários filmes marcantes da sua obra, estreando-se também o documentário “Os dois da (Nova) Vaga”, com visionamento exclusivo nos cinemas UCI El corte Inglés.

Consistindo em três partes “Des choses comme ça”, “Quo Vadis Europa?” e “Nos Humanités”, este filme composto por curtos planos entrecortados por sbtítulos em navajo english, é um exercício de pretensiosismo vazio e não teria sobrevivido a uma exibição normal em salas de cinema, o que talvez explique melhor toda esta sacralização do filme e da pessoa. Com um número contado de visionamentos, as exibições tornaram-se um happening ao qual a intelectualidade portuguesa não quis faltar. Quem se atreveria, pois, a pôr em causa a genialidade e qualidade do último trabalho do mestre Godard? Certamente não a crítica portuguesa, que se mostrou subserviente ao ícone da “nouvelle” vague e que, concedendo ao filme classificação máxima, se apressou a dissecar afincadamente o significado filosófico do filme, parecendo geral o esforço por se ignorar o elefante na tela – Film Socialisme é o último estertor de um realizador que já não tem nada a acrescentar e que nada tem para dizer, escondendo a vacuidade do seu discurso sob um experimentalismo gasto e excessivamente hermético. Senão vejamos: nesta história de um cruzeiro no Mediterrâneo com passageiros bizarros (1ª parte) e de uma família gerindo um uma gasolineira algures na província francesa (2ª parte), o espectador é brindado com um agregado de cenas desconexas pontuadas por aforismos e citações avulso (recordo-me, por exemplo, da frase “O Islão é o Ocidente do Oriente”) e artifícios sem propósito, como um zapping sonoro maçador, erros numéricos propositados, falas em alemão que não são traduzidas, diálogos que não passam de monólogos cruzados… A lista é interminável. Junte-se a tudo isto extratos de filmes documentais e de ficção, como “O Couraçado Potemkin” de Eisenstein e até, imagine-se, deste vídeo do youtube!

E onde está, afinal, o socialismo do título? Parece que Godard se esforça por ter o mínimo de mensagem possível de modo a que cada um possa projectar no filme o significado que lhe quiser dar (onde não há nada, pode ler-se tudo), já que o socialismo é reduzido a referências simplórias e genéricas mas das quais se poderá partir para complexíssimas interpretações, como o atestam as críticas do Ípsilon e, sobretudo, da Actual… Pessoalmente, tudo isto me parece uma leitura forçada de um objecto cinematográfico desinspirado, tornado críptico por forma a disfarçar o que realmente é: um Filme Fracasso.

(originalmente publicado no blog do Cinema ParaIST a 10-03-2011)

Anúncios